sábado, 22 de janeiro de 2011

RESUMIDAS IMPRESSÕES: Leite Derramado, Chico Buarque

Por Fernanda Matos

Chico está sempre doce e atraentemente me embriagando com seu jogo de palavras e de imagens que mesclam uma realidade concreta com outra (não menos real, porém abstrata) simbolicamente afetiva.

Leite Derramado é tão dinâmico e líquido, que o posso sentir escorregando por entre os meus dedos folheadores de páginas e histórias; ou entre meus peitos amamentadores de filho e lembranças; ou dentro de minha boca e alma sedenta por um leite materno que não mamei, apesar da mamadeira (leite de outra espécie) que tão bem minha mãe me ofertou. O livro é do tipo de leite que vejo claramente derramar pela boca de um corpo velho, de uma alma eterna, deitado a minha frente, que baba histórias entrelaçadas numa ordem cronológica misteriosamente característica da sua própria velhice, mais que isso, do seu íntimo ser... um leite que ora derrama em abundância gotas de sangue rancor, ora goteja gotas do elixir da vida e do amor, mesmo que em seu leite, leito de morte...

Percebo em pessoas e em mim também, no que me "enruga", por tanto eu chorar ou posto que de tão velho me envelhece, que a vida se multiplica, mais do que se divide nos tempos passados e presentes (o futuro é só para os muito pouco jovens ou muito pouco decepcionados), aonde os flashs da memória se transformam em novas vivências por quem os executa... nem sempre ocorrendo de maneira semelhante para os que apenas mal escutam, pois apenas percebem uma história contada repetida, chata e caqueticamente várias vezes...

Há no ar do livro, um tom de mágoa sem mágoa... mágoa que conta sobre o processo anti-natural, porém comum nessa modernidade, de extinção da família que se inicia com a primeira grande perda, no caso da personagem, de mim e de um monte de gente, a perda do primeiro grande amor conjugal, real ou ilusório, no entanto, insubstituível... perda irremediável no livro e na vida. Com a maturidade de um centenário bem vivido ou morrido em vida, os motivos de tal perda não importam, sabiamente nunca importaram, todavia, os resultados sim, estes são determinantes no desconstruir de um família que míngua, que quase não existe, mas insiste, por um fio, por um filho, herdeiro das desgraças aventureiras ou desconectadas de amores próprio e verdadeiro.

E eu, depois de muito perguntado e chorado, agora claramente lido e identificado, concordo profundamente, pouco importa o por quê do abandono do outro, o que consequentemente me respira é a luta de não permitir outros abandonos, por outrem, dificultando (ou facilitando) relações de intimidade... ou por mim mesma, reconstruindo-me ou apenas não me destruindo em histórias imediatamente ou homeopaticamente fatais.

Do leite que fede em minhas mãos, porém, que as hidrata, fica a certeza de que haverá mesmo eventos familiares que não serão lidos nas cartas que batem à porta atrasadas, mesmo que sejam totalmente experimentados visceral e inconscientemente, passados de passado em presente, como presentes gregos, através das gerações.

Numa atitude prática, além do gosto de leite que não gosto, e da certeza que bom para um ser é ser amamentado por sua mãe e beber do leite de suas raízes e espécie e em sua infância, ruim para uma criatura é carregar o primeiro nome de seus antepassados (posto que já e ainda bem que contém os outros sobrenomes que a enraiza), como se isso ressaltasse a obrigação de fazer o tudo de bom que o antecessor fez e aprimorar o que de ruim marcou aquele nome. Eu não repetiria nomes de família em herdeiros. Chico confirma-me meu ideal de modo lindo, onde o cara já não sabe se é o pai ou o avô ou bisa ou tataravô, porque também não sabe quem é aquele que está a sua frente portando o nome próprio dele, mesmo que saiba que tem um pouco de cada. E isso já é fato suficiente, somos um pouco de cada sangue que nos passou no passado, mas somos únicos e diferentes também, necessitamos ser próprios, proprietários de nossas vidas, tendo nosso próprio nome próprio, nossa própria missão e digital.

E dentre tantas frases em mim destacadas, outras tantas reflexões a serem realizadas com o tempo, uma dita não só por Chico, mas entre milhares, “Pai rico, filho nobre, neto pobre”, de que riquezas, ele ou eu ou você fala, planta e colhe? Quantos iniciaram com muitos bens materiais e marcaram seus descendentes pela falta dos mesmos? E quantos que começaram ricos somente de afetos se materializaram nas grandes somas lavradas em testamento? Talvez, a minha escolha e a sua (?) passe por isso. Eu escolho deixar para meu filho mais afeto que dinheiro, até porque recebi de meus pais também mais afeto do que dinheiro e desejo ao meu filho mais e mais afeto e mais dinheiro... sei lá... fico com o nó dessa mistura ainda em mim confusa.

Despeço-me com a certeza de que meus eventos históricos marcantes (conscientes e inconscientes) me acompanharão por todo o meu viver, reinventando-me, derramando-me, a cada repassagem de recordação, porque reler um livro é também ver com outros olhos linhas que passaram desapercebidas ou foram diferentemente interpretadas...


Obrigada meus queridos Mauro e Chico Buarque,
Foi e ainda é maravilhosa a leitura de Leite Derramado.

3 comentários:

Abraão Vitoriano disse...

texto
mel
bonito
!

adorei passear por suas folhagens...

beijos,
do homem-menino

fique com Deus!

Fernanda Matos disse...

Rapaz Abraão, volte sempre, e obrigada pela sinceridade, abraços

Washington Oliveira (Waro) disse...

Depois de algumas linhas de Estorvo, primeiro livro do Chico, pensei que nunca iria lê-lo de tão chato.
Mas sua bela resenha-crítica-crônica sobre o Leite Derramado me fez repensar o autor e, talvez um dia o leia.
Mesmo não gostando de leite, saboreei o seu texto, espontâneo e em estilo original. Parabéns!