sábado, 5 de fevereiro de 2011

RESUMIDAS IMPRESSÕES: A Cabana, William P. Young

Por Fernanda Matos

Este é um livro cuja origem e autor me é tão desconhecida como, ao estourar nas livrarias, fez-se bastante conhecido. Resisti muito ao lê-lo, afinal mais parece um livro de auto-ajuda... Por outro lado, dependendo do que se faz com as palavras lidas em quaisquer lugares, elas poderão nos auxiliar em nossas reflexões e descobertas. Enfim, ganhei-o de presente há um ano, momento em que o li, de uma pessoa que hoje estou afastada e por quem desde a minha adolescência escondi certa mágoa. Ofertei-o também de presente, a outra pessoa que também indiretamente alimenta outra mágoa minha...

A Cabana traz uma história catalisadora da qual nem tenho coragem de repetir, de tão feia que a vejo e sinto. E quem quiser que vá lê-lo. Assim como uma das personagens, também me escondo e me privo de falar sobre esse acontecimento tão horroroso. No entanto, semelhante à personagem, entrei na caverna das minhas tristes histórias pessoais e por lá fiquei até ontem, quando as palavras que falei no trabalho, caíram-me com outro sentido transformador da minha estadia na cabana (não que eu tenha saído de lá, ou esteja totalmente curada como no livro, até porque o livro da minha vida está longe de chegar ao último capítulo).

Pouco importa, no fundo da alma, a descrição de fatos corriqueiros ou únicos na vida. Para mim, mais me toca os sentimentos consequentes destes fatos. Então, o livro não me espanta neste aspecto. Ele também busca, como eu na minha trajetória pessoal e profissional, mergulhar e lapidar o coração bruto, cheio de ingredientes misturados... Do “A Cabana”, o ingrediente que venho lapidando é tal do Perdão. Não sei bem o que ele significa, nem sei mesmo se é um sentimento. É uma coisa que ouvi desde pequena nos corredores cristãos. Aliás, o livro tem um que de cristão, claro, o autor é padre... Todavia, um padre que me surpreendeu ao transformar a imagem divina de homem para mulher, de branca para negra, e de magra para gorda. Gente, linda esta imagem e me marca para muito tempo, “Deus é uma negona enorme!” Fantástica a quebra de estigmas.

Voltando ao tal “Perdão”... ô palavra difícil, para mim (e até para os que não a acham assim)... pouco a verdadeiramente usei e talvez ainda não a tenha utilizado corretamente, pelo menos não conscientemente. Associada ao significa de desculpas, talvez sim a tenha usufruído, mas não sei se de maneira puramente social. Parece que vem do grego e significa cancelar. A pergunta que ontem se calou era: “Como vou perdoar, cancelar, aqueles que me magoaram ou a mim mesma?”

Não existe a tecla “Del” em mim. As marcas físicas deixam cicatrizes em alto ou baixo relevo no meu corpo e as marcas invisíveis, tatuam minha alma... Não há como cancelar. Não há como não me proteger de quem me feriu. Simplesmente não consigo e, talvez, nem queira conseguir. Mas ontem associei a palavra perdão com perdas e com per dar, por dar... e fichas se acomodaram em mim.

Não poderei mesmo nunca perdoar alguém. O perdão refere-se às perdas. Perdão é uma perda bem grandona. Perdão é encarar, ao contrário de cancelar, as perdas grandes que tivemos. Quem sou eu para perdoar quem me feriu? Não só pelo olhar cristão que aprendi, isso ainda é pouco, mas quem sou eu mesma? Eu que tanto machuco outros... Não. Perdão é olhar para as perdas dos sonhos que sonhei e não se realizaram. E olhando, chorar muito, até que de tanto solution, eu descubra criativamente, e num soluço divino, novos sonhos para sonhar, “per dar”, por me dar... uns que acontecerão e outros que se transformarão em perdão.

E ao falar de soluço divino, “A Cabana” e a minha caverna, confirmam-me: não posso controlar soluços... é preciso um dedo divino para misturar meu cadinho tesouro, também divino, mais que humano, porque não controlo, entrego-me... cadinho, cantinho, canto transformador, no fogo da raiva ou na água da tristeza, das grandes perdas, perdão, em outras realizações e num sonhar contínuo.

Então para quem eu presenteei ou para quem me presenteou com o livro e com as mágoas, sinto-me aliviada por não ter que perdoá-los e posso ainda sentir por eles tristeza/raiva/mágoa... Que meus sonhos se atualizem e perdoem as minhas perdas...

2 comentários:

Helio Thompson disse...

Querida Fernanda,
Olhei, olhei, vi pequenos e belos escritos, e de repente, um bem grande. De tão grande, que a palavra chave já assusta bastante: Perdão.
É difícil não seguir os aprendizados cristãos, como não? "É preciso perdoar." Desde quando ouvimos isso? Não sei, mas por mais que eu questione o quanto seja difícil não só falar, mas como sentir o perdão, quero acreditar que realmente possa ser algo saudável. Os Xiitas, dizem que nada do que nos fazem pode nos magoar. Que somos imunes ao outro, será??? Claro que se magoa e se machuca. E não seria a prova disso a existência desse ato, dessa palavra? Bem, querida amiga, me perdoe por eu ter sumido. Tenho certeza que o pior foi para mim. E obrigado por me dar uma nova oportunidade de a encontrar. Que sigamos em frente com a nossa amizade.
Virei visitá-la sempre.
Um beijo no seu coração.

Helio

Washington Oliveira (Waro) disse...

Eu perdoo, mas nunca me esqueço!
Não sei se me entendem...