domingo, 13 de fevereiro de 2011

RESUMIDAS IMPRESSÕES: Fomos Maus Alunos, Gilberto Dimenstein e Rubem Alves

Por Fernanda Matos

A primeira vez que li este livro foi em 2004, e nas conversas anotadas nele, percebo reflexões interessantes que fiz enquanto lia, lembranças do meu tempo de escola, vozes que não tive enquanto aluna. Hoje, 2011, marco novas palavras, agora como mãe de aluno. E como a maternidade me aproximou de mim mesma, as emoções que o livro me causa resultam num rebuliço estomacal enorme, porque me sinto impotente. Tento, então, integrar minhas impressões de criança, adulta e mãe, e buscar novas pequenas ações para mim e meu filho.

A começar, fui o que muitos diriam, uma excelente e obediente aluna: tudo que me mandavam eu fazia, sem muitos questionamentos exteriorizados, aprendia o conteúdo, tirava notas boas e era da turma das certinhas da frente. Matemática era ótimo, artes também (até me dizerem que o que eu produzia não era artes), música não era comigo, não daquele jeito, mas não reclamei. Gostava de gramática, mas detestava literatura, só agora sei o porquê... Burlei muito, lia o início, o meio aleatoriamente e o fim dos livros e talvez pela facilidade de escrever resumos, acabava me dando bem. Redação, disseram-me que eu tinha uma escrita vazia, e essa maldição ainda me perturba. Idiomas, na escrita fazia direito, na fala, a timidez somada ao medo de errar e ser sacaneada me freavam. História e geografia, essas foram impressionantes, eu decorava, eu colava, mas até hoje só sei das capitais que conheci pessoalmente ao viajar... Religião, eu gostava do professor que me deu uma paleta de violão, Deusdete querido, nunca esquecerei de você, mas do que você ensinou não só esqueci, como nem me interessa, e não sei se você percebeu isso.

Diferentemente (ufa...), o meu filho não é o que chamariam de bom aluno, mas também ainda não chegou ao mau aluno, e espero que não receba nenhum destes rótulos. Ele tem facilidade de reter informação, até como eu, se for emergencial, para resolução de um trabalho/prova imediata. Tem ainda pulsando em suas veias, a curiosidade do mundo. E tem um vozeirão, grita e briga muito para ser escutado, muitas vezes em vão, infelizmente, eu sei. Agora em 2011, numa nova escola, o professor lhe perguntou sobre a expectativa para o ano, ele respondeu, que deseja compreensão. Não sei se o professor compreendeu que não é a compreensão do meu filho para com as disciplinas ou a hierarquia/escola, simplesmente o que ele deseja é que ele seja compreendido! No que eu puder ajudar farei, tenho feito, mas sinto, ainda, atadas as minhas mãos marcadas do gesso que me prendeu anos a fio.

Fomos maus alunos diz, numa conversa entre os autores, sobre estas coisas da educação. Escola nenhuma presta, não mesmo! O professor, mal sabe quem ele é, quais os seus internos sentimentos e paixões, e tem que cumprir uma carga horária e um programa educacional (ambos fixados por deduções do passado concebidas numa idéia errônea de aprendizado), que mesmo com a melhor das intenções e preparo o impedirá de conhecer aluno por aluno. Uma vez não conhecendo o que motiva verdadeiramente seus alunos, e sabendo que não está motivando, tentará buscar dinâmicas motivadoras do grupo, e até alcançará alguns pontos no propósito estimulador, mas temporariamente, porque não será real. Real, de dentro do coração do aluno. Porque motivar não é animar de fora para dentro. Motivar é descobrir os motivos internos que nos animam. É se apaixonar! Descobrir o que é prazeroso! Assim Gilberto e Rubem reclamam por uma educação consequente da vida, da curiosidade e do prazer.

Entre a vida, o prazer, o amor, os autores denunciam rapidamente os absurdos das notas, dos métodos, das rejeições e preconceitos, das incompreensões, das informações robotizadas, da falta de criatividade, do profissional do futuro que não vive o presente, do vestibular, da velocidade informacional, dos conteúdos desconectados, dos diplomas adquiridos para as paredes dos pais, da necessidade de acertar, da falta de viver as ignorâncias e os erros, da neutralidade dos professores que deveriam se mostrar aprendizes, afinal muito do que se ensina está no silêncio das ações.

Ambos dissertam sobre suas experiências enquanto alunos e educadores, e afirmam que o livro não pode ser finalizado, porque é eterna esta problemática. É um livro provocador e utópico por vezes, vomita as idéias, mas não mostra caminhos, talvez um sorteio no vestibular como diz Gilberto, ou numa escola feita sem salas de aulas, apenas pátios e recreios. Acredito que se dê assim, porque os caminhos não existem formatadamente, senão se transformariam em novos sistemas que se enrijeceriam em algum momento. Talvez, a conclusão seja andar contra a maré, ser um mau aluno, que bagunça o que dizem estar certo, que fica no fundão observando todos com os próprios olhos, criativa e curiosamente, com formiga no corpo e desejo de paixão na alma.

E eu, com as vísceras reviradas, tento descobrir as brechas do sertão do Patativa do Assaré, que afirma que esse sim foi sua escola. Ah, se eu tivesse a coragem de romper totalmente com o que me aprisiona, acho que iria com meu filho e outras pessoas que sentem as úlceras dessas porcarias urbanas e contemporâneas, para uma fazenda com o real cheiro de bosta de cavalo que me agrada muito mais. Afinal, se eu piso na bosta eu lavo minhas botas e pronto, mas pisando numas “coiseiras” invisíveis, nem sei por onde começar a me limpar.

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