quarta-feira, 11 de maio de 2011

RESUMIDAS IMPRESSÕES: Antes do Por do Sol, Filme dirigido por Richard Linklater


Por Fernanda Barros de Matos

“O Tempo é uma mentira”, frase dita pela personagem principal Jesse, enquanto pronuncia em sua entrevista o seu novo projeto. Essa frase é por ele explicada através da simultaneidade dos acontecimentos... Comenta sobre uma cena de uma menina de cinco anos que sobe em cima da mesa para dançar e que leva o pai para um passado distante, onde recorda uma amiga que também dança sobre a mesa... Acho que é isso...

O tempo é uma referência humana..., eu disse isso tantas vezes, e o filme o coloca idéia similar noutra frase tão perfeita: o tempo é uma mentira... Assim como no filme, eu tenho (e quem não teria tido?) encontros, desencontros e reencontros afetivos que atravessam a linha do tempo. Algumas pessoas foram casadas, ou ainda são... relações iniciadas na adolescência, por exemplo, na faculdade, ou na fase adulta... Alguns já se separaram... Outros se desencontraram e reencontraram anos depois. No filme, o reencontro de Jesse e Celine ocorre nove anos após o primeiro tchau.

O que são nove anos? Com mais dois a vida de meu filho, e tanta coisa ele tem para contar... Porém, o que são nove anos na vida de duas pessoas que se olharam no passado e se reviram na rua ocasionalmente, ou numa festa de comemoração de anos de formatura, ou na internet?... que num reencontro, conversam ou sentem como se não tivessem se afastado a nenhum tempo, mas também certos de que não estiveram juntos ao ponto do tempo desgastar a relação... pouco importa, tudo importa. O relevante é descobrir o que pareceu perdido no tempo, seja na figura do outro, seja nas próprias características um tanto esquecidas.

Outro dia experimentei voltar à minha escola de infância. Nossa, que emoção! O pátio onde jogava vôlei é tão menor. O ginásio também. E a travessia da porta da sala até a porta da igreja onde meus pais me buscavam ou deixavam. Como era quente e cumprida por volta das treze horas. Quente, continua, mas tão mais curta. Minhas pernas pequenas reclamavam silenciosamente e nem imaginavam que um dia caminhariam com tão mais facilidade. Por isso o tempo é uma mentira! Uma menina de nove anos sonhando fazer uma travessia levemente, trinta anos depois a travessia é feita saborosamente pela mulher cuja menina está sendo relembrada. E nesse instante, a menina e a mulher são uma só.

Reencontros de turmas antigas... Que delícia! O ano passado, experimentei rever amigos e amores que há vinte e três anos não via. Quantos sentimentos envolvidos. Frases ressoando em meus ouvidos. Cheiros. Coração pulsando ao ver alguns olhos. Beijos e abraços antigos, atualizados e já desatualizados, à espera e sem esperança. Amizades sendo recolocadas num dia a dia, mesmo que um dia a dia de tempo distinto do colegial. A saudade continua em mim, ao menos da convivência mais leve, ao mesmo tempo, mais sedutora, mais comparsa e mais pura dos jogos infantis. A leveza da travessia do colégio que minhas pernas quarentonas alcançam, mas que mancam em outras passagens, outras mesmas paisagens...

Reencontros na rua... Constrangimento no início, depois outras descobertas. Coisas não ditas que permanecem coçando a garganta. Outras coisas realizadas incompletamente que imploram por fecharem ciclos, ou abrirem outros. Abraços surpresos e demorados que devolvem ao corpo algum detalhe posto de lado. Detalhes entalhados, tatuados invisivelmente no corpo. Depois, mais uma despedida. Despedida com o gosto certo do adeus, de que se deu o que se tinha para dar e ponto. Como é bom fazer parte das lembranças de alguém.

Reencontros pela internet... redes sociais, blogs, sei lá. Uma mensagem inesperada na caixa postal: É você, a pessoa daqueles tempos? Sim. Somos nós. O que fizemos da vida? O que não fizemos... O que ainda desejo fazer, é o que busco me centrar. Cantadas virtuais. Cantatas virtuais. Ao mesmo tempo em que estamos perto emocionalmente, estamos tão distante fisicamente... ou estamos perto fisicamente e tão distante emocionalmente... novamente, o tempo é uma mentira. E o espaço físico é também? Às vezes, penso que sim, sinto que sim, que não há barreiras, nem as virtuais.

E quando o Antes do Por do Sol acontece literalmente conosco: Dois que foram truncados em, um para cada lado e, que nunca se esqueceram, mesmo tendo construído parte de suas vidas. Quando haverá o encontro? Quando o pedaço de mim que se foi retornará? Ou o pedaço de mim que nunca foi, acontecerá e me fará sentir inteira? Quando resgato o meu pedaço que me falta? Por acaso a vida tem como ser inteira? Não são de partes em partes que colorimos a cada espaço e tempo? E muitas vezes não retornamos àquela partizinha do desenho que precisa de mais cor, ou mais sombra? “Os detalhes da vida, as pequenas lembranças que me comovem e me dão saudades...” diz Celine.

“E quem saberá se nos damos bem apenas com breves encontros?” Pergunta a personagem do filme. E pergunto eu a mim mesma, quem saberá se minha vida não é tão linear e mosaical, onde o tempo é uma mentira, e tudo na vida passa, atravessa, repassa, nos breves encontros e nas longas despedidas? E tudo isso compõe meu destino, ou meu destino que é composto disso? Nesse destino, pronto ou em eterna construção, há alguma espinha de peixe, uma coluna vertebral que permite meus tantos movimentos? De ida e vinda, de oi e de adeus, de à deus (que deus?)

Há em mim uma tendência ao sofrimento que viaja pelo tempo e pelos fatos? Tenho tendências a Maria das dores, como fui chamada na infância. Ou a romântica, como fui definida na adolescência. Ou a antiquada, deprimida como tentam me rotular? Ou no fundo, sofrer é necessário para crescer. É que alguns dormem enquanto as pernas crescem e nem sentem a dor... Eu estou dormindo agora. Durmo numa parte da vida que será em outro momento colorida ou novamente pintada. Durmo como se não pudesse mais acreditar no amor conjugal, afinal estou acordadíssima para outros prazeres na vida, os quais me alimentam, recompõem-me e, principalmente, “só dependem de mim”.

E essa escolha me diferencia de você, que está bem casado (se diz, se pensa, ou se sente assim) em quê? O escritor do filme confessa o que pareceu à moça felicidade nele, era ilusão. Ele com a vida de praxe, toda resolvida, estava sentindo faltas: “A Vida é sugada por um aspirador de pó”. É isso! Não quero aspiradores de pó na minha casa! Não quero ser sugada, apesar de ainda ser. E a personagem complementa: “A vida é mais do que comprometimento!” Sim. E eu não me contento apenas com os comprometimentos. Quero mais! Quero a vida fluida. Nós somos água em mais porcentagem, contida no limite e no comprometimento do corpo. Mas essa é a parte física e material da vida, porque a alma é ilimitada, é muito mais. E eu desejo ela. Desejo o encontro de almas, ou reencontro. Como se tudo fosse a primeira e a última vez. E não há tempo à perder, nem nele se perder. Novamente os detalhes me nutrem e me ausentam.

E no início do filme, Jesse revela que escrever tal livro objetiva escrever outra caminhada e um novo fim, do desencontro ao reencontro. Eu imito ele todo dia. Descobri, reencontrei, minha forma de criar elasticidade, fluidez, às minhas histórias: Escrever e Pintar - eu escrevo o que fui, ou o que deixei de ser, ou o que desejo ser; crio imagens, coloro umas partes e sombrio outras, numa mistura de tempos passado, presente e futuro, num eterno linear mosaicar. Dessa maneira, sigo cruzando outras histórias, tão solitárias, melancólicas, desejosas e apaixonantes como as minhas e como as suas. Porque no fim ou no início de tudo, Antes do por do sol, antes que meu pulsar escureça para este mundo, preparo-me para acordar, nascer, em outro. Afinal, se agora o sol cai aqui no Brasil, lá no Japão ele ilumina e acorda aos que lá estão...

Um comentário:

Danilo Vasques disse...

Parabéns pela postagem e pelas inclinações reflexivas do texto; o tempo, paradoxalmente, é sempre um assunto inesgotável. Belo filme!