segunda-feira, 1 de agosto de 2011

RESUMIDAS IMPRESSÕES: PONTES DE MADSON


Filme dirigido por Clint Eastwood

Por Fernanda Matos

Ao envelhecer perdemos nossos medos”, herança ofertada por Francesca aos filhos, numa carta em que apresenta o seu segredo maior, seu amor eternalizado por outro homem que não o marido e pai, mas um estranho, um viajante, um fotografo, Robert. Um amor escondido, silenciado e vivenciado à intimidade de apenas quatro dias e à distância do resto de suas vidas.

Francesca tem quatro dias de folga da família, seu marido e dois filhos adolescentes viajam para uma exposição rural, e ela fica em sua casa, em volta de ninguém e de toda a natureza. Não que a família dela lhe seja uma cruz a ser carregada, mas no momento seu desejo era de estar só para ela, onde as tarefas rotineiras fossem brindadas com um delicioso chá gelado, com a falta de horários e compromissos e com uma história inusitada. Quem nunca desejou isso?

Ter uma família ou não tê-la são as possibilidades. Porque não se pode ter as duas coisas juntas, porque a nossa sociedade nos apresenta como sendo alternativas excludentes. Não acredito nisso. Fico com a história do filme e de um monte de pessoas que realizaram histórias semelhantes, onde se ter uma família, e com amor a ela, não impede de amar uma outra história, uma outra vida. Ou, o oposto, não se ter uma família não impede de criar raízes voadoras com o vento, raízes que ao invés de se fincarem na matéria, se enraízam no espírito.

Francesca pode ser vista vulgar e superficialmente como uma traidora, porque se deitou e amou um outro homem que não aquele abençoado pela sua igreja e sua comunidade. Ela pode ser vista como uma mentirosa porque escondeu sua pulada de cerca. Ou pode também ser vista como uma medíocre e hipócrita por não ter tido a coragem de abandonar tudo, que de certo modo lhe aprisionava, e viver com sinceridade o amor que como diz Robert “só acontece uma vez”. (Será? Amores só acontecem uma vez? Eu não sei e espero que não.). Ou ainda, ela poderia perceber que a vida de romance é uma ilusão, o que ela viveu em quatro dias foi uma grande paixão, mas o que ela viveu em quarenta anos é que era amor de verdade... caminhos... escolhas...

Francesca escolheu o AMOR! Em todos os aspectos e em todas as configurações.

Escolheu o AMOR de mãe, ficando com os filhos até eles escolherem não estar mais com ela, e quando ela os deixou na terra, deixou como herança o não ter medo de amar.

Escolheu o AMOR de esposa, porque ela amava a história que construiu com o homem que um dia se apaixonou e que por ele da sua terra natal mudou, o pai de seus filhos, provedor de sua família, e como ela mesma diz, fazedor dos detalhes do cotidiano de sua vida.

Escolheu o AMOR do presente, do momento, do estranho que é íntimo e portanto nada estranho, do novo que contem o mundo, a essência, a terra natal, a liberdade de ser, a casa que se faz no próprio corpo e alma apenas, sem paredes, sem móveis, sem passado ou futuro, só o presente do presente.

Escolheu o AMOR do eterno, que exatamente por não se aproximar dos detalhes do cotidiano, vive na distância física e na realidade do abstrato, de uma conexão sem mídia, apenas o profundo e silencioso coração. Como diz Robert, todo lugar por onde ele foi, toda foto que ele tirou, todo artigo que ele escreveu, passava pela lente dos olhos do único amor que sentiu, e que por amor não ficou e por amor, nunca abandonou, mesmo não trocando os detalhes do cotidiano.

Uma vez, uma mulher da terra me falou: Há amores que são vivenciados solitariamente... e eu complemento: ...Há amores que são vivenciados solitariamente e que unem as almas eternamente...  

A última cena do filme especialmente me inspirou e deixo aqui minhas resumidas impressões:
Sou corpo para o amor na terra.
Sou pó para o amor em outra esfera.

Fernanda Barros de Matos

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