sábado, 7 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: DE CARTA EM CARTA


Autora: Ana Maria Machado
Ilustradora: Nelson Cruz

Adoro quando conheço um pouco do processo criativo do artista, assim como eu adoro escrever sobre como as minhas obras me chamam. Lembro-me, de uma vez, acordar com um livro de poesia quase pronto no sonho, a minha sorte que o computador estava ao lado da cama, então me coloquei a digitar imediatamente, sem nem pisar o chão, para não esquecer, é claro. E outra vez, duas personagens vieram ao meu sonho discutir sobre o porque de não estarem participando daquela historia, foi engraçado...

É como se eu virasse a própria personagem do livro, como se eu ficasse íntima do criador e da criatura. Não que isso seja absolutamente necessário, porque também sei, que a minha mente analítica precisa ficar de fora, para só o meu coração se expressar, sentir sem pensar e me conectar através do inusitado e do desconhecido, o que também é sensacional... Talvez seja bom, de vez em vez, para alimentar a menina curiosa residente em mim, sem permiti-la virar fofoqueira...

Particularmente, em De Carta em Carta, percebo que Ana Maria Machado foi muito feliz em descrever desde o início da vida do livro. As personagens principais que vieram ainda influenciadas pelo livro anterior, um dos objetos centrais, a carta, mas principalmente, o cenário, dos escrevedores, afinal como ela mesmo relata, por dois diferentes momentos, Ana se deparou com algo semelhante, numa historia de Garcia Márquez e num filme de Walter Sales Jr, o famoso Central do Brasil.

Mas Ana, tenho certeza, isso não passa de sincronicidade. O mundo é sincrônico, e quando estamos transitando nele com amor e arte, as descobertas que vivenciamos, outras pessoas do mundo, afins aos nossos modos de ser, estão também descobrindo. Já vi ideias que ficaram silenciadas em mim, tempos depois gritarem em algum canto e com outras vozes que não a minha. Falo isso, acho, mais do que para Ana Maria Machado, para eu mesma, a fim de eu me tranquilizar: a vida pulsa sincronicamente e tudo acontece em seu tempo e lugar...

Tempo e lugar pulsantes em De Carta em Carta. Senti pulsar as teclas das antigas máquinas de escrever; senti pulsar as mãos dos escrevedores, bons escutadores de muitas vidas; senti pulsar as famílias, na travessia geracional e natural, das diferenças e semelhanças do tempo ora enrugado, ora atrevido, ora enraivecido, porém amado; vi pulsar um Brasil atual com velhos e crianças ainda analfabetos...

Nesse livro, entendi um pouco mais do que a velhice faz com a gente: Ela nos deixa cansados e com medo de sermos esquecidos, porém muito mais sábios. A forma apaziguadora como o escrevedor traduz a raiva de um menino para o avô, adicionada com o jeito do avô respeitar a escrita, a carta e o conteúdo da carta, mostra que as relações podem ser sinceras e diretas no sentir, o que está para além do simplesmente cuspir e agredir.

É um ensinamento para mim e para todos os leitores: na raiva, o caminho começa no caminhar. Andar e andar e gritar ao vento, até o vento trazer a solução da expressão do descontentamento, construída com arte, amor e paciência, com a palavra escrita, enviada, lida e respondida, com calma e com o propósito do diálogo e da compreensão dos valores individuais. Perfeito!

Assim como foi perfeita a inserção do menino na escola. Nada de ir para escola quando não há desejo. Nada de forçar desejo de pais em cima das crianças. O desejo é individual e vem de dentro como aconteceu com o neto. Puxa, o menino desejava expor a raiva sentida pelo avô, com o cuidado para não ser castigado, e entendeu que teria que fazê-lo pagando com o próprio suor. Acatou a sugestão do escrevedor e dia após dia foi vendo as vantagens escolares: escrever, ler, relacionar, jogar futebol, compreender os seus direitos legais e exigi-los diante dos governantes e da lei, fazer arte, desenhar...

Ah, os desenhos... Nelson Cruz preencheu-me o coração. A cor esverdeada da capa, informando do tempo que passa, do tempo que espera, do tempo que cura... do tempo clássico, do tempo da praça, das cartas chegadas na casinha de correio daqui de casa, da saudosa máquina de escrever... Da simplicidade da vida, das cores que pulam dos olhos sincronizadas com as emoções pulantes de dentro do peito. A camisa de futebol do time do Brasil tatuando o que há de popular em mim e em todos nós.

Amei o jogo de luz e sombra, de fundo e figura, do olhar das figuras expresso nos olhos, nas cores e nas mãos. As mãos de todas as ilustrações me disseram exatamente o que as palavras escritas diziam. A desenhada profundidade ilustrando o mergulho que fiz no livro e em mim. Amei as personagens de Nelson, queixudas e os grandes arcos, ampliando-me no tempo e no espaço.

Por fim, o livro trouxe uma realidade brasileira: famílias pobres e unidas, aspirantes do conhecimento, da educação e da boa relação, fundamentada no diálogo dos interesses e dos sentimentos essenciais. E esse, De Carta em Carta, é um instrumento, com total certeza, necessário aos lares e às escolas. O que eu aqui escrevi foi, o que até agora, tomei consciência de que percebi. Mas há tantas maneiras de interpretar, porque há tantas individualidades para lê-lo.

Indico De Carta em Carta para crianças que gostam de ler um pouco mais, mas não muito, e que podem dialogar sobre o que sentem. Indico para os pais, avós e educadores que pretendem alinhavar e resolver as diferenças. Indico às escolas que podem com ele desenvolver lindos projetos. Indico, para quem é sensível e gosta de sentir.

Fernanda Matos.

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