domingo, 8 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: FLORA


Autor: Bartolomeu Campos de Queirós
Ilustradora: Ellen Pestili

Não sei por onde começar a escrever minhas resumidas impressões de Flora... Já tentei vários começos e nenhum alcança o meu desejo de estar a altura de Bartolomeu Campos de Queirós... Também, que pretensão ingênua e fantasiosa a minha... É que, Bartolomeu é tão sensível, tão poético, tão delicadamente revolucionário, no sentido de cutucar meu peito, fazendo-me respirar lenta e transformadoramente, que gostaria de escrever um pouquinho metaforicamente como ele, pelo menos aqui nesse momento, mas pelo visto, só usando suas próprias palavras. É que sinto ele tão profundo com as palavras, que não encontro outras para descrever Flora. Sigo, tentando...

Flora me faz lembrar do nome da minha saudosa bisavó Floripes. Onde será que ela está? No eterno, responderia Flora. Uma personagem admiradora do tempo, do tempo que venta as folhas das árvores, soprando sementes pelo mundo. Do tempo que nunca efetivamente morre, porque renasce o tempo todo. Do tempo infinito da mãe, da terra, que gesta, que pare, que cresce, que morre e que volta a viver. Do tempo calmo que para, prepara o solo, semeia, colhe e contempla cada tempo, o tempo todo. E a todo tempo, a cada palavra, Bartolomeu perpetua a minha sensação de que a minha bisa vive árvore ou semente em outras terras...

Qual parte da minha bisa que vive em mim, para além dos gens e do físico? Flora responderia: a parte que continua disponível para o fruto, para o filho, para a infância, para o milagre de ser útero, terra, onde se germina e se observa o ciclo da vida. Minha bisavó está em mim, porque ela apodreceu e foi alimento, adubo, para as sementes da nossa família aflorarem. Apoio-me em Flora e descanso, porque posso acreditar, posso saber como “Flora sabia morar em cada semente uma floresta, árvore, galho, fruto, flor e sempre.” Minha bisavó mora em mim, assim como eu moro no meu filho. E como já moro no meu bisneto que um dia será a semente... “Era preciso apenas paciência para outras vidas serem reinventadas...” Porque no fundo, sempre acreditei que “a semente traz o antes e o depois...” Posso suspeitar acompanhada de Bartolomeu como “Flora suspeitava ser para sempre a vida...”

Inspirada na personagem, posso também me certificar que a arte da minha vida ainda é semente e, que mantida as diferenças com o respeito merecido, cada um de nós tem seu próprio estilo de florir e adubar, porque quero saber como Flora sabia “que cada semente guardava uma esperança para virar verdade...”  E a verdade é que sou apaixonada por Flora e por Bartolomeu e por Ellen Pestili, por meu filho, por árvores, por terra, por cães, por cavalos, por corujas, por animais, por palavras, por desenhos, pela arte e pelo amor.

Confessora amante da vida natural, veterinária e ilustradora, na verdade criadora de lindas imagens, Ellen colou, pintou, transformou a madeira em árvore de novo. Sua criação original é encantadora e impressionante. Tatuou a Flora aonde a personagem mais gostaria de estar, na natureza, junto das sementes, das folhas, das flores, das árvores. Pintou olhares de esperança, de entrega, de dúvida ou de certeza, de cuidado, de descanso.

Cuidou do solo que recebeu sua criação, lixou, alisou, colocou os grãos na palma de sua mão e os colou, plantou para todo o eterno num livro inesquecível. Floresceu criativamente outra maneira de desenhar um livro. Utilizou diferentes materiais e os alinhavou harmonicamente. Passo a minha mão em cada página de Ellen e sinto as saliências da superfície da terra... E se eu pudesse, bordaria um vestido branco florido e semeado como o de Flora.

Linda a parceria desses dois poetas. Esse, sem dúvida nenhuma, é outro livro que indico para todas as idades. Um livro para ser lido e contemplado no silêncio que existe em nossas almas. Para ser compartilhado no íntimo das relações. Um livro que revolucionaria a literatura escolar, afinal, introduziria uma aprendizagem para além da gramática de um português bem escrito, ou da literatura clássica, ou das técnica artísticas. Um livro a ser tocado e revirado delicada e detalhadamente dezenas de vezes. Porque a cada tempo, parafraseando Bartolomeu, uma semente plantada, canta sua poesia e apresenta seu bilhete para diversas viagens...

Fernanda Matos.

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