segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: ASAS BRANCAS


Autor: Carlos Queiroz Telles
Ilustrador: Rogério Borges

Hoje, enquanto estava relendo Asas Brancas, meu filho me viu e repetiu umas quatro vezes: Esse livro é muito bom! E ele tem razão. Assim que o vi no sebo, sabia que iríamos gostar muito. Carlos Queiroz Telles afirmou ser quase um livro autobiográfico.
E ouso dizer que alguns leitores também poderiam qualifica-lo assim, mesmo não o tendo escrito. Eu, por exemplo...

As crianças criadas em cidades grandes, como eu fui, um pouco menos como o meu filho tem sido, e mais como alguns coleguinhas dele são, estão tão inseridas na modernidade, na tecnologia, nos passeios urbanos, que não saberiam quais sensações que o mundo natural provoca. Aliás, muitos adultos e seus filhos constroem impressões errôneas, acusando a vida rural de suja, incômoda, desinteressante, antiquada, ruim...

Zeca, um menino de dez anos, urbano, conseguiu superar os desafios encontrados diante do que era novo para ele, o mundo da fazenda, do café da manhã quente na teta, da sobremesa pronta na árvore, do banho nu no rio, da amizade de uma cobra (não aquela venenosa da cidade), da surpreendente família feliz de corujas piantes, do silêncio que também é escuro, do escuro que brilha longe com a multidão estrelar lá do céu...

 Do cavalo que é bem diferente da bicicleta, apesar da parecida sensação de aventura... Ah, os cavalos... Ainda bem que são eles que trazem para o nosso cotidiano, meu e do meu filho, a proximidade com a natureza. Os bichos que nos olham, que nos conhecem pelo cheiro da verdade, da entrega, da parceria, da comunhão pela liberdade. O vento na crina, nos cabelos, no pescoço, as pernas do cavalo que voam e as do cavaleiro que abraçam, a solidão acompanhada.
Foram tão lindas as palavras do autor ao descreverem o momento solitário de Zeca. Ele galopando, nadando, descansando, voltando mais ainda inteiro. Inteiro como o livro, com um título perfeito: Asas Brancas, asas de quem voa livre, brancas de quem possui todas as cores, todas as possibilidade, tudo que há na vida natural. Carlos você me confirmou, há situações na vida, que são inesquecíveis e podem, precisam, ser compartilhadas com arte, literatura.

Com literatura e ilustração juntas que fomentam a nossa curiosidade, a nossa vontade de experimentar o diferente que integra a gente. Como num beijo. O primeiro beijo, sensivelmente descrito por Carlos. Aquele que a gente não esquece, porque marca uma nova fase, tão naturalmente bela e apaixonante. Aquele beijo que não é cobrado socialmente na turminha dos amigos, nem vendido em programas de TV ou escritos vazios. Aquele beijo que existe na hora certa e muda a noção silenciosa e individual de hora e de certo. Que é único e coça para ser lido, visto, sentido. Aquele beijo que dá sentido, porque tira o sentido.

E Rogério Borges me ofertou um novo sentido, tirando o sentido. Suas ilustrações misturam tintas, cores, texturas, imagens e pixels. E esses pixels me roubaram o sentido e a razão de defesa de uma arte somente feita no papel. Rogério me instigou a conhecer o computador também como ferramenta de um ilustrador, o qual só poderá ser aproveitado se o usuário o fizer com amor, arte, dom de comunicar, de sensibilizar, de criar.

Carlos e Rogério voaram ligados com suas Asas Brancas e o resultado só poderia ser um livro rico, completo, a ser aproveitado em casa e na escola. Para quem gosta de ler um pouco mais do que o pouquinho, para quem gosta de desenhar lindos cenários na imaginação, para quem gosta da vida da fazenda, da mistura dos bichos selvagens e domesticados, das leves aventuras que tornam as leituras viagens reais, nas emoções e nas reações físicas, esse é um bom livro para se adquirir.

Na escola, um vasto projeto a ser trabalhado, com crianças talvez do quinto ou sexto ano, inserindo a arte, escrita e desenhada; a fotografia; o computador; as experiências individuais das férias e das feras; do medo e da superação dele; do amor e do beijo sem jogos, sem fofocas, sem pressões; da árvore que emociona, só porque Zeca se sentou em suas raízes e sentiu algo tão profundo, que não era tristeza, apesar das lágrimas, mas tão só águas limpadoras da alma. Vale a pena. Esse livro é muito bom!

Fernanda Matos.

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