domingo, 15 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: A Menina, o Cofrinho e a Vovó


Autora: Cora Coralina
Ilustradora: Claudia Scatamacchia

Cora Coralina é uma das existências mais doces que conheço. Queria eu ter experimentado seus doces feitos por suas próprias mãos, na deliciosa e aconchegante cozinha, varanda, pomar, na casa que tive o privilégio de visitar, com meu filho e com nossa amiga Raynne, numa das nossas várias viagens a cidade do Goiás. Aliás de Goiás Velho tenho ótimas lembranças, muitas inspirações e saudades.

Pensando melhor, os cristalizados doces cozidos no tacho de Cora, não os comi, mas me lambuzo com as palavras cosidas nos diversos livros que ela nos deixou. A Menina, o Cofrinho e a Vovó é um desses quitutes de abacaxi que tanto amo. Um livro delicado, carinhoso, autobiográfico. Um docinho que poderia ser azedo se não fosse adocicado. Um pedacinho da vida de Cora contado com suavidade, apesar da dificuldade ali vivida.

Claro que é difícil sustentar uma vida simples, com ideais nem tão simples. Viver de doce e palavras, porém viver cotidianamente com prazer naquilo que se faz. Quantos de nós, em nome de coisas que aparentemente desejamos, trabalhamos em lugares que não gostamos? Sustentar-se no lugar simples como fora a casa da ponte não é tão simples, mas é recompensador.

Recompensa que a vovó do livro recebeu do cofrinho da menina que a ajudou na compra da tão necessária geladeira. Geladeira “conservadeira“ de caldas ou “combatedeira” do inimigo bolor. Recompensa, que a avó deu para a menina, neta, ao deixar testamentado neste livro, uma pequena grande vivencia de amizade, credibilidade, incentivo e amor entre as duas.

Recompensa, confirmada na confissão da menina Célia que virou mulher, anos e anos depois. Cora e a avó deste livro deixaram de herança não somente a bondade, nem tão só a disponibilidade, nem somente o livro, mas, principalmente, a busca de viver onde se ama viver. Célia, a neta, moradora de Palmas, diz: “Renasci e sou feliz, na terra de Cora Coralina que hoje se chama Tocantis.

Feliz é o livro. Felizes são as suas ilustrações. Talvez, eu as pensasse em traços ou tons envelhecidos, assim como sinto a casa da ponte e as coisinhas de Cora que lá estão, ou mesmo as sensações que a cidade me provoca. Por outro lado, compreendo e gosto dos felizes desenhos de Cláudia Scatamacchia, das cores da vida e da alegria de seus cenários.

Percebo a aquarela, que tanto amo, nas mãos de Cláudia. Pergunto-me se houve um acabamento no computador, pois sinto uma certa perfeição que ainda não alcancei nos meus pincéis, tintas e papéis. Acredito que essa pergunta tenha mais a ver com a minha curiosidade de aprendiz de ilustradora. Assim, como curiosa sou diante da escolha de Cláudia expressar, em sua maioria, olhos da avó tão introspectivos. Eu sinto os olhos de Cora mais atentos e comunicativos. Mas essa é a Cora, e no livro é uma avó também de Cláudia. Abelhudice minha, talvez...

Seja como for, gostei do resultado e recomendo para crianças pequenas, para as vovós lerem para elas, ou para todos que se sentem ligados ao mundo da vovó doceira ou da doçura de vó. Esse livro marca com arte a relação de netos e avós. Sugiro ainda, para quem tem vontade de incentivar o projeto, aparentemente impossível, de alguém que goste e que se empenha de maneira doce no cozimento da própria vida.

Fernanda Matos.

7 comentários:

Ives disse...

Nossa como tenho saudade da vida simples, e tenho que trabalhar onde não aguento mais rss abraços

Anônimo disse...

oi fê lindo seu blog! perdi seu telefone e queria falar contigo. me dá uma ligada.

luis

Fernanda Matos disse...

Ives, meu caro, é realmente uma pena não aguentar mais... ou ter que aguentar mais... Desejo que você possa rever suas prioridades, gradativamente...
Um abraço para vc.

Fernanda Matos disse...

luis também estou sem o seu numero... e obrigada, vamos tentar emails...

Mariza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernanda Matos disse...

Marisa, você sempre é muito bondosa
e o teu comentário é mais que um elogia,
feito da pura poesia de seu coração sincero, obrigada demais!!!!

Mariza disse...

Fernanda, sua alma transpira poesia que suas mãos enxugam em letras. Bjo grande