domingo, 15 de janeiro de 2012

RESUMIDAS IMPRESSÕES: A Vida Íntima de Laura


Autora: Clarice Lispector
Ilustrador: Sérgio Matta

Puxa, como demorei a criar coragem para escrever sobre um livro de Clarice Lispector. Ela, uma escritora sui generis, com reconhecimento nacional e internacional, quase uma divindade da literatura brasileira, como eu poderia falar qualquer coisa de sua obra? Realmente me dei um nó. Fui lentamente o desatando e aqui estou, diante da Vida Íntima de Laura.

O livro que temos em casa está bem marcado pelo tempo. Suas páginas amareladas e algumas soltas foram editadas pela José Olympio Editora, em sua 4a edição e publicadas em 1979, com  imagens criadas por Sérgio Matta. O livro atualizado foi editado pela Rocco e ilustrado por Flor Opazo. Escrevo diante das ilustrações de Sérgio, conforme o livro que tenho em mãos.

Não sei se foi a limitação do processo de diagramação e gráfica da época, ou limitações financeiras, ou a escolha do ilustrador, o que pouco me importa, porque na verdade o uso combinado de duas cores apenas, e o laranja e preto, principalmente hoje, traz-me uma sensação de raridade, um tesouro histórico do começo da trajetória da literatura infantil brasileira.

Percebo não só a bicromia da época, mas a própria construção da ilustração com informações e cenários reduzidos, o que pode revelar mais uma vez a idade do livro, ou a tendência de um tempo ou a experiência de um ilustrador, ou apenas o seu estilo, como mais ou menos eu ainda produzo, em minhas iniciantes tentativas de ilustradora. Seja como for, Sérgio Matta consegue registrar os cocoricós de Laura, como se o som saísse da boca desenhada, ou mesmo o colo e conforto maternais de Laura ao chocar seu filho Hermany. São ilustrações imperdíveis, como disse, uma raridade.

Raridade é raridade. Raridade é Clarice. A Vida Íntima de Laura pode ser somente uma historiazinha para crianças pequenas, uma do tipo daquelas que a gente inventa na hora de dormir. Até me fez lembrar das noites escuras das férias, as histórias contadas oralmente a quatro vozes e mentes, por mim, meu filho e minhas duas sobrinhas. Como quando a gente inventa a partir de uma palavra e em sequencia, cada um cria uma parte da história.

Parece Clarice. Ela brincou com a palavra galinha. Daí foi inventando parágrafo a parágrafo e nas pausas de suas invenções, ela conversava com o leitor, como se estivesse ao lado brincando como nós.  Essa é uma forma lúdica de interpretar Clarice, porque no fundo, pode-se entender que uma galinha viva tem sentimentozinhos e pensamentozinhos como gente, ou gente como galinha.

De maneira leve, a autora falou sobre a vaidade, a lealdade, o medo da morte, a crença na vida, mesmo que de outro planeta, ou em outro tempo, ou com outra finalidade. É tão leve e rápida a abordagem desses temas, que poderia passar desapercebida ou poderia não ter sido planejada. Mas vindo de Clarice Lispector, que me fez chorar pela morte de uma barata, duvido que esta forma de extrair e expressar o simplório e desprezado mundo seja pura coincidência. Não acredito em coincidências. Acredito em essência, era da personalidade da escritora utilizar da vida, da imaginação e da criação assim, até meio chocante.

Para terminar, confesso não ter gostado de algumas interações que a autora faz com os leitores, traz a marca antiga, para mim pouco rica, de um tempo em que a escrita para infância objetivava ser moral e educativa. Talvez porque fosse seu terceiro livro infantil. Percebi isso também acontecer com outros escritores e comigo também no meu primeiro livro. Mais madura, sei que criança não precisa de moralismos, no entanto, tem sede de Poesia, de Prazer, de Sentir!

Fernanda Matos.

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